quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Superpopulação de peixes revela deterioração da Lagoa da Pampulha

Notícia divulgada no portal UAI, em 22 de junho de 2008.


A Lagoa da Pampulha tem peixes, aos montes. Podem chegar a 28 por metro quadrado de espelho d’água nas partes mais profundas. É densidade para pescador nenhum botar defeito. Poder-se-ia concluir, portanto, que as águas do mais conhecido cartão-postal de Belo Horizonte estão boas. Certo? Errado! A proliferação excessiva de peixes é um sinal de deterioração. Mais do que isso, o fenômeno contribui para piorar a qualidade da água. Os índices de fósforo, nitrogênio amoniacal e clorofila-a da Pampulha estão várias vezes acima do permitido para a Classe II.

Até essa categoria, de acordo com a Resolução nº 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), pode-se nadar e praticar esportes náuticos. Ou seja, na Pampulha, nem pensar. As medições de indicadores bioquímicos e de densidade de peixes foram feitas em maio por pesquisadores do Laboratório de Gestão Ambiental em Reservatórios do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que estudam a lagoa há 15 anos. Eles avisam que, além de investimentos pesados para evitar que esgotos cheguem à Pampulha, será necessário reduzir a quantidade de peixes, ainda que para isso se liberem práticas predatórias, como a pesca com tarrafa.

Não é preciso mais do que uma rápida espiada nos dois braços da lagoa que recebem os córregos Sarandi e Ressaca para perceber o mau estado das águas. Emanações de gás formam bolhas a todo momento. O biólogo Ricardo Pinto Coelho, coordenador do laboratório do ICB, observa que a estação de tratamento instalada no Parque Ecológico da Pampulha recebe uma parte muito pequena da vazão dos córregos e não está equipada para capturar fósforo e nitrogênio.

As medidas tomadas pela equipe do ICB em 17 de maio dão respaldo técnico à impressão visual. Em 15 pontos de coleta, a concentração de nitrogênio amoniacal variou de 1,7 miligrama por litro a 2,4 miligramas por litro. O limite para a Classe II é de 1 miligrama por litro. O índice de fósforo oscilou de 140 microgramas por litro a 250 microgramas por litro, sendo que o teto para a Classe II é de 30 microgramas por litro. Por fim, a clorofila-a foi de 63 microgramas por litro a 130 microgramas por litro, ou seja, chegou a mais de quatro vezes a concentração máxima da Classe II, que é de 30 microgramas por litro.

Os altos índices dessas substâncias dão as pistas do círculo vicioso da poluição. O fósforo e o nitrogênio alimentam as algas, que têm o crescimento detectado pela presença da clorofila-a. As algas são decompostas com forte absorção de oxigênio por bactérias que freqüentemente produzem toxinas. O resultado são águas com baixa taxa de oxigênio dissolvido e envenenadas, com sérios prejuízos para a fauna, as plantas e o homem.

A abundância de peixes nesse ambiente desfavorável tem uma explicação. São principalmente tilápias, uma espécie exótica (africana) introduzida na Pampulha, que tem grande capacidade de adaptação a lagos poluídos. O biólogo Carlos Bernardo Mascarenhas Alves, do Projeto Manuelzão/UFMG, diz que há uma percepção geral entre os estudiosos de que a tilápia tem o hábito de revolver o fundo dos lagos para buscar alimento e pôr ovos, levando para a coluna d’água elementos nocivos, como o fósforo, antes sedimentados. Há indicações também de que a tilápia se alimenta de ovos de peixes de outras espécies.

Recentemente, a equipe do laboratório do ICB fez entrevistas com pescadores habituais da Pampulha. Elas revelaram que a tilápia é praticamente o único peixe capturado atualmente na lagoa. A última pesquisa científica sobre o estoque de peixes foi feita entre 2001 e 2002, pelo bolsista de pós-graduação Gilberto Nepomuceno Salvador, com apoio da PUC Minas e do Projeto Manuelzão. Nas coletas, 78% dos exemplares foram de tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus).

As capturas registraram 10 espécies na lagoa, metade do que foi encontrado 10 anos antes, em outra pesquisa semelhante. Salvador também constatou que praticamente desapareceram as espécies mais pescadas no passado. O trairão, originário da Bacia Amazônica, e a pirambeba, nativa da Bacia do Rio das Velhas, eram muito apreciados pelos pescadores pela qualidade da carne.

As estimativas inéditas da densidade de peixes na Pampulha, assim como da Lagoa Central, na cidade de Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, estão sendo feitas pelo biólogo José Fernandes Bezerra Neto com o emprego de uma sonda hidroacústica, adquirida pelo laboratório do ICB com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig).

A instituição concedeu a Bezerra Neto uma bolsa de pós-doutoramento para refinar o trabalho. Ele explica que a sonda, montada num barco, emite ondas sonoras e identifica fauna, flora e sedimentos pelo retorno do som ao encontrar obstáculos. Os peixes são localizados por causa da resposta específica produzida pelo ar contido em suas bexigas natatórias. Programas de computador aplicados à sonda permitem estimar o tamanho e o peso dos indivíduos.

domingo, 27 de setembro de 2009

Arquivos para confecção de gráficos

Estes dados foram obtidos a partir de análises da qualidade da água da lagoa da Pampulha e devem ser utilizados pelos grupos para a confecção dos gráficos.

Dados de 2002 a 2007


Dados de 2008 a 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pampulha perdeu quase 50% da água em 50 anos

Notícia divulgada no Portal UAI, em 22 de maio de 2008.


Um dos cartões-postais mais conhecidos de Belo Horizonte, a Lagoa da Pampulha, na região de mesmo nome, perdeu 1/3 de sua área ao longo dos 50 anos desde sua reinauguração, em 1958, depois do rompimento da represa em 54. Naquela data, o espelho d’água ocupava um espaço de 300 hectares e, atualmente, tem 196,8 hectares. O volume de água também diminuiu: eram 18 milhões de metros cúbicos na década de 1950 e, agora, 10 milhões.

“A alteração é muito significativa. E, mesmo assim, até hoje, as pessoas fazem pesquisas e estudos considerando o antigo formato do reservatório da Pampulha”, alerta o biólogo Rafael Resck, autor da dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O trabalho, intitulado Avaliação morfológica e estudo da variação horizontal e parâmetros limnológicos do reservatório da Pampulha, mostra que a consolidação do parque ecológico na foz dos córregos Ressaca e Sarandi e o assoreamento das enseadas dos córregos Braúnas e Água Funda (área próxima ao zoológico) alteraram de modo definitivo as características originais do reservatório.

De acordo com o biólogo, em 1999, o volume de água chegou a 8,5 milhões de metros cúbicos, um dos mais baixos. Mas, apesar disso e da redução da área ao longo dos anos e do comparativo com o volume de água de 1958, houve uma pequena melhora. “É interessante analisar essa capacidade de resposta da lagoa, que, apesar de ter sofrido com a redução de área e ter pedido volume, conseguiu se recuperar um pouco”, observa.

Segundo Resck, o último levantamento das características do reservatório foi feito em 1999 pelo Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN/UFMG), a pedido da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), órgão da Secretaria Municipal de Políticas Urbanas, da Prefeitura de BH.

“Me interessei pelo assunto porque ninguém conhecia o atual formato físico da lagoa – o contorno, a área, o volume de água. Nem a prefeitura tinha dados atuais, e a lagoa passou por grandes obras de dragagem de terra na década de 2000”, explica. Depois de analisar 22.183 pontos do espelho d’água em 2007, fazendo um levantamento batimétrico (que analisa o desenho do fundo de um reservatório, por meio de visitas com barco e usando um aparelho que coleta coordenadas geográficas e de profundidade), Rafael Resck conseguiu traçar um perfil do reservatório.

Áreas diferentes

A represa da Pampulha tem duas regiões distintas: uma é rasa, com menos de 3m de profundidade, na região da Ilha dos Amores, onde há muitas algas, sedimentos trazidos pelo despejo de esgoto direto e dos córregos poluídos, Ressaca e Sarandi; e a outra é profunda, com até 8m de profundidade, no trecho entre a porção mediana da lagoa até a região da barragem. A profundidade média medida por Resck foi de 5,1m, enquanto a máxima observada chegou a 16,17m, em ponto próximo à barragem. Antigamente, considerava-se 14 metros como o limite de profundidade.

Outro aspecto avaliado no mestrado foi a qualidade da água. Onde há mais sedimentos, menor a qualidade; onde a distância da foz dos córregos é maior, a água é melhor. O biólogo acredita que o diagnóstico é importante para nortear projetos e políticas públicas de intervenção na Lagoa da Pampulha. “Faltam trabalhos mais freqüentes desse tipo para termos dados refinados da situação. Não há uma equipe que estude regularmente a bacia hidrográfica da Pampulha”, acrescenta.

Água em Foco

domingo, 20 de setembro de 2009

Como fazer um relatório científico?


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Assoreamento avança na Lagoa da Pampulha

Notícia divulgada no Portal UAI, em 18 de fevereiro de 2009.



A barragem da Pampulha, projetada na década de 1930 para servir de abastecimento de água e também como área de contenção de água das chuvas, já não tem mais a primeira das características devido à poluição e corre o risco de perder também a vocação de conter cheias. Esse é o principal assunto a ser discutido nesta terça-feira em reunião entre associações de moradores, o prefeito Márcio Lacerda e o secretário Regional da Pampulha, Osmando Pereira da Silva, no Iate Tênis Clube. O assoreamento e o esgoto são os grandes inimigos da lagoa – um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte. Nos últimos oito anos, a prefeitura investiu pelo menos R$ 200 milhões em intervenções no local, segundo a Secretaria Municipal de Políticas Urbanas (Smurb). No entanto, representantes das entidades temem que a sujeira proveniente de esgoto e o acúmulo de resíduos e areia no espelho d’água enterrem de vez a lagoa e a retirem do cenário turístico da capital.

“Projetada há 73 anos, ela tinha o caráter de abastecimento, que perdeu, e, ao longo dos anos, a situação piorou. Houve forte processo de assoreamento e nosso receio é que a lagoa perca também as características de barragem, que é a capacidade de absorver e conter as águas dos temporais”, afirma o diretor de meio ambiente da Associação dos Amigos da Pampulha, o engenheiro ambiental Carlos Augusto Moreira. Segundo ele, é necessária uma política mais incisiva que reduza ao máximo a quantidade de detritos na lagoa.

Moreira observa também que o mau cheiro é outro agravante. “Infelizmente, isso se tornou muito comum e o risco de o espelho d’água perder a vocação turística também aumenta. Na reunião, vamos propor iniciativas para que esses problemas sejam sanados. Recentemente, em uma obra emergencial para corrigir o interceptor de esgoto, houve a necessidade de rebaixar o lençol da lagoa. Vi o quanto de terra há na barragem e o perigo disso tudo. O rebaixamento fez emergir a verdade de que a Lagoa da Pampulha está morrendo a cada dia, com o imenso volume de sedimentos”, salienta o engenheiro.

Dados da Smurb mostram que em 1936, época de fundação da barragem, havia cerca de 18 milhões de metros cúbicos de água. Na década de 1980, o nível chegou a 7 milhões de metros cúbicos. A secretaria explica que desde 2001 ocorre trabalho contínuo de recuperação da lagoa, o que inclui a retirada de 1,6 milhão de metros cúbicos de sedimento, substituição da comporta de fundo da barragem, construção de novo vertedouro, entre outras iniciativas.

Dentro do padrão


Os resultados, de acordo com a Smurb, são visíveis no volume atual de água, que alcança 9,9 milhões de metros cúbicos, ganho de 17,2%, comparado com o volume registrado pelo Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear em 1999. A Secretaria de Políticas Urbanas afirma ainda que a vazão das águas da lagoa está dentro dos padrões de segurança e que a rede de drenagem de toda a orla foi adequada e os alagamentos, minimizados. Para evitar o acúmulo de detritos, a prefeitura retirou, no ano passado, mais de 9 mil metros cúbicos de sedimentos.

Mas o esgoto é ainda um dos grandes desafios. Cerca de 60% dos córregos que deságuam na Pampulha estão localizados em Contagem, na Grande BH, e, para solucionar problemas de saneamento e evitar que o esgoto seja lançado nos rios, foi criado o Consórcio de Recuperação da Bacia da Pampulha, com representantes das prefeituras de BH e Contagem. “Nosso principal trabalho é o de educação ambiental nas duas cidades. São mais 40 córregos que abastecem a lagoa e grande parte deles já foram tratados. Mas ainda é preciso conscientização e apoio da população”, explica o presidente do consórcio, Leonídio Soares. A Copasa também desenvolve uma série projetos de implantação de tubulações, em Contagem e BH, para evitar que o esgoto deixe de cair nos cursos d’água e seja tratado na estação do Ribeirão do Onça.

Copasa promete despoluir Lagoa da Pampulha antes da Copa

Notícia divulgada no portal UAI em 28 de julho de 2009.


A promessa é de que nos jogos da Copa de 2014, em Belo Horizonte, torcedores vejam um cartão-postal digno de fotografia na parede, e sem mau cheiro. A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) pretende que em três anos a Lagoa da Pampulha esteja despoluída. Isso significa navegar, nadar e pescar na represa. Mas também superar desafios de mais de duas décadas, que persistem sem solução. O exemplo mais recente são as cianobactérias, micro-organismos nocivos à saúde e conhecidos como algas azuis. Como informou o Estado de Minas sexta-feira, o espelho d’água está infestado delas, revestido de uma crosta verde e malcheirosa. O fundo do problema e, de vários outros, é o esgoto.

“Antes mesmo da Copa, em 2012, vamos concluir as obras de saneamento que dependem exclusivamente de nós, instalando interceptores de esgoto em Contagem, na região metropolitana, e em Belo Horizonte. São investimentos de R$ 60 milhões”, afirma o superintendente de serviços e tratamento de efluentes da Copasa, Ronaldo Matias. As obras mais importante, iniciadas em junho, são os 35 quilômetros de rede sanitária, entre coletores, nos bairros Xangrilá, Tijuca, Bom Jesus e Vale das Amendoeiras, em Contagem, e interceptores no Córrego Água Funda, que deságua na Pampulha, e ao longo de parte da margem esquerda da lagoa.

A tubulação levará os dejetos a quatro estações elevatórias, que bombearão o material até a estação de tratamento de esgoto do Onça (ETE-Onça). Toda essa engenharia custará aos cofres da Copasa R$ 16,2 milhões e livrará o espelho d’água de 2,5 milhões de litros de esgoto por dia. A obra deve ser concluída em dois anos. Matias ressalta que o desafio são as vilas e favelas situadas próximas aos afluentes da represa, nas quais não há redes sanitárias. “Essas ações dependem de um trabalho coordenado entre Copasa e as prefeituras de Belo Horizonte e Contagem”, pondera. Ele ressalta que análises da qualidade da água feitas na lagoa têm indicado aumento da quantidade de oxigênio.

Impactos

Mas a melhora desses índices não consegue resolver problemas antigos, pelo contrário. Segundo a pós-doutora em cianobactérias Alessandra Giani, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desde 1997 as águas da represa não são tomadas de forma tão avassaladora pelas algas. “Fiquei assustada. Vejo isso como um alerta. Se não diminuirmos os impactos no meio ambiente, o sistema não terá condições de se recuperar. A única coisa que temos a pensar é em um tratamento mais efetivo do esgoto e maior arborização, evitando que sedimentos caiam na lagoa”, afirma. O excesso de matéria orgânica nas águas, a pouco oxigenação e a escassez de consumidores levaram à reprodução excessiva desses organismos tóxicos.

A proliferação das algas reflete um ambiente desequilibrado e poluído, com grande oferta de matéria orgânica. “Quando aumentam muito os nutrientes, há uma explosão da população de algas. O risco é que as cianobactérias são tóxicas. Podem ser perigosas para animais e seres humanos, levando até à morte”, alerta. Alessandra afirma que estudos feitos na Pampulha, em 1993, já apontavam a má qualidade da água. Em 1998, houve certa melhora. Mas análises feitas no ano passado indicaram uma piora no espelho d’água, com aumento de nutrientes lançados pelos esgotos.

Segundo a pesquisadora, a proliferação de algas este ano deve ter como causa as altas temperaturas, combinadas com o tempo seco, que aumenta a concentração do esgoto. Esse trio favorece a proliferação dos micro-organismos. “Este ano está havendo muito calor para o mês de inverno. A retirada dessas algas é inviável. A única coisa que se pode fazer é diminuir a quantidade de nutrientes que as fazem crescer. Ou seja, acabar com o esgoto”, diz.

Limpeza

Segundo a Secretaria Municipal de Políticas Urbanas, a limpeza da Lagoa da Pampulha é feita diariamente. São usados dois barcos e uma balsa, num trabalho que envolve 30 pessoas. O volume de lixo recolhido diariamente é de 20 toneladas no período chuvoso e a metade na época da seca. O maior volume de resíduos sólidos se concentra perto dos córregos Ressaca e Sarandi. Anualmente, são retirados sedimentos que chegam à represa, para evitar assoreamento do espelho d’água. As principais obras em curso na região e que vão garantir melhoria do saneamento da bacia da Pampulha são a urbanização das vilas São José e Califórnia, nas regiões Noroeste e Nordeste da capital, respectivamente.